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Criptomoedas

As stablecoins e a promessa de estabilidade

dezembro 21, 2018

As stablecoins e a promessa de estabilidade

Como o próprio nome já diz (em inglês, “stable” significa “estável” e “coin” significa “moeda”), stablecoins são criptomoedas criadas para ter um valor estável. Apesar da volatilidade tipicamente associada às criptomoedas ter efeitos positivos em momentos de alta, pois pode contribuir para a popularização, como ocorreu com o Bitcoin no final de 2017, ela também tem efeitos negativos, já que pode desestimular sua adoção como forma de pagamento por conta da instabilidade do poder de compra e afugentar investimentos.

Como buscam minimizar os efeitos da volatilidade, as stablecoins vêm ganhando cada vez mais espaço, visto que a estabilidade é capaz de reduzir o risco financeiro ao permitir que os investidores escapem das flutuações sem obrigatoriamente sair do mercado cripto. É possível dividi-las em dois grupos: as lastreadas em algum ativo e as algorítmicas.

Stabelcoins lastreadas em ativos

Essas stablecoins mantém uma reserva do ativo em questão para garantir a estabilidade do valor. De acordo com uma pesquisa realizada pela empresa Blockchain em setembro, esse grupo corresponde a 77% das stablecoins existentes. Podemos classificá-las em dois tipos:

Stabelcoins lastreadas em ativos tradicionais (commodities ou moedas fiat)

O valor é atrelado a alguma moeda fiat (moedas emitidas por instituições reconhecidas pelos governos. Exemplos: dólar, real, euro, etc) ou a alguma commodity (produtos de qualidade e características uniformes cujo preço é determinado pela oferta e procura internacional. Exemplos: cobre, ouro, petróleo, etc).

As stablecoins atreladas a moedas fiat são as mais comuns e foram as primeiras a aparecer no mercado. A paridade do valor na proporção de 1:1 com a moeda fiat é garantida por meio de depósitos feitos através de instituições financeiras reguladas. O montante depositado deve refletir a quantidade em circulação da stablecoin de modo que quem possui 1 unidade da stablecoin seja capaz de resgatá-la por 1 unidade da moeda fiat. Exemplos: TrueUSD (TUSD), USD Tether (USDT), Paxos Standard (PAX), Gemini Dollar (GUSD), Circle (USDC), dentre outras.

No caso das stablecoins lastreadas em commodities, a estabilidade do valor é garantida por reservas da commodity em questão, sendo, então, respaldadas por valores reais e tangíveis. Essas reservas devem refletir a quantidade em circulação de modo que quem possui 1 unidade da stablecoin seja capaz de resgatá-la por 1 unidade do ativo real (por exemplo, 1 grama de ouro é resgatada por 1 stabelcoin). Exemplos: Digix Gold Tokens e Petro.

Por serem lastreadas em ativos cujo preço flutua em função de outras variáveis, essas stablecoins não sofrem com valorizações ou desvalorizações das criptomoedas. Por outro lado, elas estão sujeitas à volatilidade e ao risco do ativo e à confiança depositada nos governos, devido a sua relação com instituições tradicionais.

As stablecoins lastreadas em ativos tradicionais são consideradas centralizadas, pois a instituição que as emite é também aquela que administra os depósitos desses ativos garantidores. Logo, é preciso confiar que ela manterá os depósitos adequadamente e que os ativos são resgatáveis. Tal centralização é um dos pontos mais criticados, pois vai contra a proposta de descentralização e da não exigência de confiança em uma instituição específica das criptomoedas. Essa estrutura centralizada também é propensa a várias vulnerabilidades e riscos, como um ponto único de falha, falência da entidade central e riscos morais. Auditorias externas precisam ser realizadas para verificar a credibilidade das contas.

Ainda é preciso cumprir certas exigências regulatórias, já que essas stablecoins estão ligadas a ativos regulamentos e mantém os depósitos em sistemas bancário tradicionais, o que dá margem para um controle do Estado, pois entidades reguladoras podem, em teoria, forçar a instituição responsável por uma stablecoin desse tipo a proibir transações de indivíduos específicos.

Stabelcoins lastreadas em outras criptomoedas

Esse tipo de stablecoin tenta fixar o preço em relação a uma determinada moeda fiat colocando como lastro uma quantia de uma única criptomoeda ou uma cesta de criptomoedas. Isso elimina a necessidade de confiar em terceiros, já que o processo pode ser feito em um blockchain, porém introduz outra fonte de volatilidade, pois as criptomoedas não são estáveis. Assim, essas stablecoins são descentralizadas e têm uma estrutura transparente, além de serem facilmente convertidas para outras criptos, mas são garantidas por ativos muito voláteis.

Exemplo: Dai. A relação atual considerada segura é de 150 ethers (ETH) para cada 100 DAI.

Stabelcoins algorítmicas (Seignorage)

Esse grupo de stablecoins não possui lastro. Elas tentam manter a paridade em relação a uma moeda fiat por meio da definição algorítmica de uma política monetária pré-definida que expande e contrai a oferta disponível no mercado, como um banco central.

Por exemplo, se o preço da stablecoin estiver muito alto, o algoritmo do protocolo emitirá novas unidades e as introduzirá no mercado, aumentando a oferta até atingir a paridade de preço. Se o preço estiver muito baixo, o algoritmo comprará a stablecoin no mercado, diminuindo a oferta até atingir a paridade de preço.

A compra das stablecoins no mercado é feita basicamente pela vendendo títulos que dão direito a uma unidade daquela mesma stablecoin em uma data futura, ?incentivando os detentores a vendê-las. É preciso acreditar que a plataforma e o projeto ainda existirão na data de resgate. Exemplos: Basis.

Algumas stabelcoins

Apesar do Tether ser a mais famosa, existem mais de 60 stablecoins no mercado (incluindo projetos que ainda não foram concretizados). Dentre esses, GUSD, PAX, TUSD e USDC, que oferecem paridade ao dólar e, portanto, concorrem com o Tether, são regulados, logo seguem padrões de auditoria e transparência, algo que diminui o temor no mercado que estes ativos não poderão ser resgatados contra o dólar americano. Antes havia muitas suspeitas sobre as reservas de ativos que garantiam a estabilidade, porém, com algumas iniciativas tendo apoio institucional, ganhou-se maior confiança.

No entanto, de acordo com Garrick Hileman, head de pesquisa na empresa Blockchain, quase 60% dos US $ 350 milhões investidos em capital de risco em projetos de stablecoin foram direcionados para abordagens que não dependem dos bancos e, portanto, prometem ser mais descentralizados e acessíveis. A seguir, detalharemos algumas dessas stablecoins:

Tether

A maior stablecoin por capitalização de mercado é o Tether (USDT). São muitas as especulações que giram em torno da empresa, cujos sócios são os mesmos da exchange Bitfinex. A empresa alega que cada token emitido é apoiado por um dólar dos Estados Unidos, no entanto, não houve uma auditoria forte para confirmar essa afirmação de que a empresa de fato possui reservas equivalentes em dólar americano ao total de Tethers que circulam no mercado. Além disso, o Tether de repente perdeu sua paridade com o USD em outubro, já que o valor do token USDT caiu significativamente abaixo de US $ 1.

Digix Gold Tokens

O DGX é criado por uma empresa chamada DigixGlobal e é atrelado ao ouro. Programado para ser auditado a cada 3 meses, seus ativos são resgatáveis a qualquer momento e ficam armazenados em um cofre em Cingapura. O valor de cada stablecoin é totalmente dependente do valor de mercado do ouro. O DGX é baseado em um algoritmo, no qual cada barra de ouro é protegida e seu status de propriedade é rastreado com precisão no blockchain da Ethereum.

DAO

Criada pela MakerDAO, a DAI é uma criptomoeda descentralizada com um valor nominal atrelado ao dólar americano. A DAI alcança a estabilidade de preços através de um sistema autônomo de contratos inteligentes que responde às dinâmicas de mercado variáveis. O Ether (ETH) é usado.

Basis

A Basis arrecadou US$ 133 milhões em abril de 2018 de várias empresas de grande porte do Vale do Silício e que se autodenominou “uma criptomoeda com um banco central algorítmico” e que recentemente anunciou o encerramento do projeto, comunicando que devolveria o capital levantando aos investidores. O projeto foi finalizado porque teria que aplicar regulamentações de valores mobiliários impostas pelos EUA, o que implicaria uma centralização das operações e limitações nos participantes do leilão.

A promessa de estabilidade e seus benefícios

As stablecoins, ao atenuar a volatilidade das criptomoedas, tornam sua adoção como forma de pagamento mais viável, o que pode ser benéfico para pessoas que vivem em países que sofrem com altas taxas de inflação e têm poder de compra reduzido. Nesses países, a possibilidade de converter seu dinheiro em stablecoins pode garantir que o valor de seu dinheiro seja preservado. Também traz a possibilidade de ajudar investidores a proteger seu capital reduzindo o risco trazidos com as flutuações de valor.

O conceito das stablecoins é bastante interessante, mas há uma crença na de que talvez seja impossível criar uma stablecoin perfeita, descentralizada e estável ao mesmo tempo. Provavelmente haverão ainda muitas iniciativas nesse sentido, mas é preciso cuidado. Não se deve supor que a stablecoin seja tão estável quanto qualquer moeda fiat no longo prazo.